No Distrito Federal, a infância de muitas meninas é interrompida de forma precoce. Dados do DataSUS revelam que, entre 2013 e 2023, 1.707 adolescentes de até 14 anos se tornaram mães**, o que representa uma gestação a cada dois dias.
A maioria dessas jovens está inserida em contextos de vulnerabilidade e negligência, muitas vezes sem acompanhamento familiar e em situações de risco. Sem estrutura para lidar com a maternidade, abandonam a escola e passam a depender de trabalhos informais ou do suporte mínimo de programas sociais. Em **88% dos casos, as adolescentes são mães-solo**.
A infância interrompida
De acordo com especialistas que acompanham essas jovens, muitas engravidam acreditando viver um relacionamento normal, sem perceber que foram vítimas de violência sexual. “Ela acha que era um namoro, ou que estava ficando com alguém e acredita que estava consentindo. Embora tenha 14 anos, não encara como violência”, explica a psicóloga Evelyn Carvalho, do Núcleo de Avaliação para Proteção Integral (Nuapri), da Vara da Infância e Juventude do TJDFT.
O uso de álcool e drogas também aparece com frequência nesses casos, aumentando a exposição a riscos. “Ela está entregue às próprias experiências, degustando novas sensações. E o adolescente, como o cérebro ainda está em formação, não tem controle adequado dos impulsos, gosta de correr riscos”, complementa a psicóloga.
Sonhos quebrados e maternidade fantasiada
As adolescentes muitas vezes acreditam estar formando uma família perfeita, mas, na prática, são obrigadas a assumir responsabilidades sem maturidade emocional ou suporte. Em alguns casos, continuam a usar drogas e chegam a levar o bebê para festas, exigindo a intervenção da Justiça. Em outros, se unem ao pai da criança e acreditam que conquistaram independência, vivendo uma maternidade idealizada.
A realidade, no entanto, é dura: sem estudo, sem profissão e responsáveis por uma criança, tornam-se dependentes financeiramente e tendem a repetir padrões familiares. “Elas não conseguem se ver na faculdade. As referências mais próximas são de pessoas que também abandonaram a escola, muitas vezes as próprias mães que também engravidaram cedo”, afirma Evelyn Carvalho.
Dados preocupantes, mas em queda
Apesar do cenário alarmante, os números mostram queda ao longo dos anos. Em 2013, foram registrados 236 casos de meninas de até 14 anos grávidas. Em 2023, o número caiu para 99. Dados preliminares da Fundação Abrinq indicam 80 casos em 2024.
O levantamento, no entanto, considera apenas bebês nascidos vivos, deixando de fora situações de aborto e natimortos. Ou seja, o número real pode ser ainda maior.
A rede de proteção
Quando os casos chegam à Vara da Infância e Juventude, o objetivo é articular a rede de assistência social, envolvendo Cras, Creas e benefícios governamentais, além de fortalecer vínculos familiares. Em situações de desejo de entrega para adoção, o TJDFT acompanha a gestação e oferece escuta qualificada para apoiar a adolescente.
Pela lei, qualquer relação sexual com menores de 14 anos é considerada estupro de vulnerável. Porém, muitas dessas jovens não reconhecem a violência sofrida, o que dificulta ainda mais a interrupção desse ciclo de abuso, abandono e pobreza.
A realidade das meninas mães no DF é o retrato de uma infância interrompida e de uma sociedade que ainda precisa avançar em políticas públicas, educação sexual e acolhimento, para que essas adolescentes possam ter novamente a chance de sonhar com um futuro diferente.
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